Linux; por que a dificuldade de aceitação?
Em umas de suas explicações sobre a dificuldade da mudança de pensamento, Rubem Alves, em seu livro “Filosofia da Ciência. Introdução ao jogo e suas regras”, fala sobre o pensamento comum: “A grande maioria está imersa em suas rotinas. Por que haveriam de mudar a tradição se tudo funcionou tão bem até agora?” (p. 173).
O professor doutor Alves argumenta em outro trecho de seu livro diz que “Se há preconceitos e resistência, isso não se deve a uma deformação individual, mas é uma expressão da vida social do grupo, [...]“ (p.203).
Esse pensamento, como é informado no livro, é comum no meio científico, mesmo com conhecimento, informação, e “[...] equivocam aqueles que pensam que as ideias se impõem pelo peso das evidências” (p.173). Se no mundo científico as amarras do temor de mudanças existem, no “mundo real”, das pessoas comuns, os grilhões são quase indestrutíveis. Essa é a triste realidade humana, onde o novo é visto com desconfiança e o medo de mudanças é a reação mais comum.
Esse mal, o da desconfiança, o do medo de mudanças, atinge o Linux torrencialmente, e em conjunto com a desinformação e com fatos passados, o sistema do pinguim é rodeado de mitos (leia mais sobre mitos aqui: https://sinapseslivres.com.br/2010/11/mitos-sobre-linux/).
Falando de maneira informal, pode-se enumeras facilmente a causa da dificuldade do GNU/Linux conseguir penetração no mercado doméstico. Pode-se listar assim as razões básicas, tirando o lado do contexto histórico, que ao Windows décadas de vantagens e um legado de desenvolvedores de programas e hardwares compatíveis, e o lado de mercado, quando a empresa dominante usa suas armas, suas práticas comerciais, para se manter líder dentro do seu perímetro (parcerias com fabricantes de computadores para realizarem venda casada e práticas ainda mais terríveis como fizeram com o Netscape, onde do dia para a noite integradores fecharam as portas ao Netscape):
* Desconfiança com o desconhecido: como já foi falado, uma das principais razões é a desconfiança com o novo. Isso é uma característica humana e se não for tomadas providência pode ser grande gerador de mitos.
Essa medo pôde ser comprovado em um pesquisa informal da ZDNet Austrália. Quando se escondeu a informação que o sistema em teste era Linux e foi informado que era o Windows, ou seja, um ambiente já conhecido, as pessoas ficavam mais a vontade e viam as melhorias do “novo Windows”. Veja:
https://www.youtube.com/watch?v=btAaUZIhV6c
* Desinformação geral: muito não entendem que Linux é o kernel e com base nele se faz o sistema completo, a distribuição. Muitos não entendem que existem distribuições ruins e estas nada tem relação com as outras. Não entendem que se a distribuição “Y” é ruim, não quer dizer que a “Z” também seja, pois é outro projeto, é de outra empresa ou grupo.
A maioria ainda não entende o motivo de existir tantas distribuições. Não entendem que as muitas que existem é porque são voltadas para públicos específicos, como Ubuntu, Mandriva, MeeGo e Xandros para usuários comum e Red Hat, Debian, CentOS, Novell SUSE para o público corporativo e até mesmo Scientific Linux, CERN Linux e FERMILAB Linux para pesquisas científicas. E cada uma com seu público específico concorrendo entre elas, gerando inovações e melhorias.
* Desconforto com o aprendizado: aprender algo novo é difícil. O desconforto em sair de um estado de comodidade para um de aprendizagem é grande. Isso contribui largamente para impedir que muitos usem e também é um grande gerador de crendices sobre Linux.
Por que alguém trocaria um sistema que é bom de usar, como o Windows, e começaria a usar um outro que é diferente? – a única resposta seria a necessidade criada por um marketing e/ou um custo-benefício melhor, que realmente o Linux na maioria das vezes tem (mas tem um problema da pirataria, que iriei falar mais abaixo).
* Passado comprometedor: no passado qualquer distribuição Linux era difícil de pessoas comuns instalarem, usarem. Tinham os lendários comandos de terminal – que estão quase extintos em distribuições para desktops. Mas não adianta dizer para as pessoas que o passado ficou para trás. As pessoas continuam a fantasiar sobre Linux. Muitas acham que para usar Linux precisa saber programar! (absurdo!) ou serve só para pessoas da área da informática, como no passado – algumas pessoas usam o Google Android em seus smartphones e sem saber que é Linux falam mal do Linux.
Para essas pessoas precisaria ter mais informações como essa: https://sinapseslivres.com.br/2010/11/mitos-sobre-linux/
* Desinformação com o conceito: eu lembro que um especialista de um site famoso (nem vou falar o nome) foi analisar o Ubuntu e falou que encontrou grandes dificuldades em instalar programas, principalmente o Flash Player.
Ora, ele não procurou aprender a respeito de nada, nem mesmo no menu ajuda do Ubuntu. Ele não sabia que o Ubuntu funcionava com pacotes .deb, que era só baixar e dar 2 cliques para instalar ou usar a Central de Programas, que tem quase tudo que se precisa, clicando apenas em “instalar” para instalar um programa. Até o Flash Player, que ele queria, estava lá, bastando apenas clicar em “instalar”.
* Pirataria: de acordo com estudos de Harvard, pirataria favorece o Windows e prejudica a aceitação do Linux. O estudo revelou a lógica simples que todos sabiam. Se o Windows é bom, eu estou acostumado, por que iria trocar? O custo-benefício que daria vantagem para o Linux é descartado pois um produto pirata é barato ou mesmo grátis.
Eu poderia falar mais, no entanto o texto está muito grande e dar para ter uma noção do motivo do Linux não deslanchar no seguimento doméstico. O resumo é praticamente medo do novo, falta de informação e até a situação histórica do mercado. Nos smartphones, por exemplo, cujo seguimento está começando a se popularizar, o Linux já domina (Google Android, Nokia-Intel MeeGo, HP WebOS e Samsung Bada são Linux).
